20091205

Resenha


PINKER, Steven. O Instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2002.


Pinker, no livro, voltado para o público em geral, trata do instinto exclusivamente humano para aprender, falar e compreender a linguagem como uma adaptação biológica para transmitir informação. Sua abordagem é bastante acessível na maior parte do texto, inclusive ao leitor leigo.

O instinto da linguagem contém treze capítulos: Um instinto para adquirir uma arte; Tagarelas; Mentalês; Como a linguagem funciona; Palavras, palavras, palavras; Os sons do silêncio; Cabeças falantes; A torre de Babel; Bebê nasce falando – descrever céu; Órgãos da linguagem e genes da gramática; O Big Bang; Os craques da língua e O design da mente, além de prefácio, notas, referências bibliográficas, glossário e índice remissivo.

A obra é extensa o suficiente para que se possa abordar, de maneira clara, assunto tão vasto com bastante leveza e o humor refinado característico, também presente em outras obras deste autor.

Farta quantidade de exemplos e casos são pertinentemente utilizados pelo autor tornando o livro realmente didático. Nas partes mais técnicas, Pinker emprega alguns diagramas para melhor ilustrar suas idéias.

O livro apresenta: notas (557 destas para 558 páginas de texto, virtualmente uma por página) com detalhes precisos sobre a origem de suas citações; extensa bibliografia é fornecida, o que se presta, muito bem, como ponto de partida para pesquisa mais abrangente a respeito do assunto; glossário que esclarece os termos mais complexos e índice remissivo.



Conhecer Pinker:
Aprender linguística
Só resenhando.





O primeiro capítulo do livro tem como título Um instinto para adquirir uma arte. Nome formulado a partir da expressão: “uma tendência instintiva a adquirir uma arte” cunhada pelo naturalista inglês Charles Robert Darwin (o primeiro a conceber a linguagem como espécie de instinto do homem), expressa muito bem a idéia central deste capítulo que apresenta a linguagem como peça da constituição biológica de nosso cérebro.

Após enxuto prefácio, no qual o autor apresenta a linguagem como ciência; dedica a todos seu livro e faz os devidos agradecimentos, dá início ao capítulo, e ao livro, com a idéia de que a linguagem é um meio de criar, nos cérebros uns dos outros, acontecimentos criteriosamente definidos por aquele que cria e perfeitamente bem compreendidos pelo que recebe a mensagem. O que, realmente, é uma capacidade digna de atenção.

A escrita é, naturalmente, tida como sendo um acessório da fala, traço principal da comunicação verbal, já que foi com tal capacidade que o Homo sapiens tornou-se a primeira espécie conhecida a dar causa a mudanças tão profundas no próprio planeta, posto que fortes são os laços entre a experiência humana e a linguagem. E a linguagem como faculdade instintiva inerente a todos e não como um produto da cultura.

Não mais fruto de uma mera imitação por parte das crianças, dos adultos, a linguagem é um sistema, herdado biologicamente, cuja complexidade foi apresentada pelo linguista Noam Chomsky, nos anos 50, como contraponto às idéias behavioristas, que dominavam o cenário das ciências sociais na metade do Século XX. Chomsky acenava com dois argumentos fortíssimos: o notável ineditismo de cada frase emitida e a impressionante velocidade com a qual um humano passa a compreender e utilizar, com perícia, e sem instrução formal, tais frases de maneira coerente. Esses argumentos fizeram-no concluir que o cérebro deve conter uma espécie de programa capaz de elaborar um número infinito de frases a partir de um número finito de palavras: programa denominado por ele de gramática mental, e que os homens nascem preparados com um aparato, que os capacita a detectar os padrões sintáticos da fala de seus pais (seja qual for a língua falada por estes), denominado, pelo linguista, Gramática Universal (GU).

Tais idéias, em que pese terem dado origem ao surgimento de diversas novas áreas de estudo da linguagem e também pelo fato de terem atacado o “Modelo Clássico das Ciências Sociais”, fizeram e fazem de Chomsky uma das personalidades mais conhecidas e incômodas, desde então.

Pinker coloca seu trabalho sob a, bastante presente, influência das idéias de Chomsky, sem deixar de apresentar divergências de diversas naturezas, para responder a pergunta feita ao final do primeiro capítulo: por que alguém deveria acreditar que a linguagem humana é parte da biologia humana, segundo o autor - um instinto.


Falar Humano:
Fruto de um instinto
Pré-definido.





No segundo capítulo, o autor parte de uma verdadeira volta ao mundo para exemplificar e atestar, por meio de linguagens faladas nos mais diversos cantos do planeta, a universalidade da linguagem e a ausência da falta desta faculdade em membros da espécie, inclusive entre os que, por alguma deficiência, estão privados da fala (sem o comprometimento da faculdade herdada geneticamente) e utilizam-se da linguagem de sinais para comunicar-se, em consonância com a GU, para chegar à solução do questionamento feito ao final do primeiro capítulo.

Das montanhas isoladas da Nova Guiné à escadaria de uma casa no bairro do Harlem, nos Estados Unidos, a totalidade dos seres humanos fala uma língua que possui padrões relativamente semelhantes em sua formação estrutural. Assim como para os montanheses, que tiveram seu primeiro contato com outra civilização na figura de garimpeiros brancos e um grupo, nativo das planícies da ilha, liderado por Michael Leary, chegaram à conclusão sobre serem os estranhos de natureza humana ou espiritual ao observar que: “a merda deles é igual à nossa”, Pinker conclui que a natureza humana não depende de sua cultura, sempre diversificada, mas sim de sua essência genética.

Apesar da aparente simplicidade da linguagem humana, até os dias de hoje não se conseguiu reproduzir, por meios artificiais, um sistema de linguagem que seja tão complexo quanto à sofisticação gramatical do mais simplório dos seres humanos ao falar. Entretanto, ao terem que comunicar-se com falantes de outras línguas, em diversos momentos da história, pessoas criaram inicialmente uma provisória e precária forma de comunicação, o pidgin, que na primeira geração seguinte, é adotada pelas crianças nascidas, como sua língua nativa. Às línguas surgidas por meio deste processo dá-se o nome de crioulo: uma nova língua criada e aperfeiçoada por crianças a partir de um pidgin.

Um fenômeno ocorrido na Nicarágua é de especial importância para a hipótese de Pinker: escolas para ficientes auditivos foram criadas pelo governo local, com o objetivo de ensinar a leitura labial e fala aos alunos, mas cujo resultado (apesar de não atender a esses objetivos) foi a criação, pelos próprios alunos, fora das salas de aula, por meio do contato possibilitado por esta aproximação, do que iria se tornar a atual Lenguage de Signos Nicaragüense (LSN).

A LSN é um pidgin, e as crianças abaixo de quatro anos de idade, educadas por este pidgin, transformaram e aprimoraram-no a tal ponto que hoje recebe nome diverso, Idioma de Signos Nicaraguense (ISN), e é considerado produto de crioulização. A criação da LSN pelas crianças e sua evolução para o ISN, é relevante, por retratar o nascimento hodierno de uma nova língua.

Deficientes auditivos criados por pais que usam uma língua de sinais aprendem-na de forma idêntica a que crianças não deficientes aprendem a língua falada dos pais. Já crianças deficientes, criadas à margem de um grupo com as mesmas dificuldades, ao atingirem idade adulta sem ter aprendido uma língua de sinais, tem exatamente a mesma dificuldade para aprender esta nova língua do que tem qualquer adulto ao aprender uma língua estrangeira: forte indicativo da existência de um período crítico, na infância, para a aquisição de uma linguagem, após o qual uma língua não é adquirida com facilidade, e a destreza em sua articulação estará comprometida, na maioria dos casos.

A linguagem como instinto deve ter um órgão responsável por sua realização e um gene específico até agora não encontrado. O autor, entretanto, demonstra por meio de diversos casos médicos reais, nos quais a linguagem foi afetada, ou permanece intacta (a despeito do comprometimento de outras funções), que nada mais é necessário do que os genes certos ou justamente os pedacinhos certos do cérebro para que se possa, com competência, utilizar a linguagem.


Oh, Nicarágua,
Respondidas perguntas:
Segunda parte.





Mentalês, nome do segundo capítulo do livro, representa a idéia de uma linguagem utilizada para pensar, totalmente diferente daquela utilizada na fala. Posiciona-se o autor fortemente contra a crença de que pensamento e linguagem sejam a mesma coisa. Não bastassem outros fatos apresentados, Pinker nos faz a seguinte questão: se o pensamento depende de palavras, como poderia uma palavra nova ser forjada, que esclarece a controvérsia sobre o fato das palavras dependerem do pensamento ou o oposto.

Neste capítulo, o autor atesta os equívocos do determinismo linguistico e de outras idéias, que denomina balelas antropológicas, como a de que os esquimós tem um número astronômico de nomes para a neve, muito maior que o de um jornalista de previsão do tempo em Boston tem, o que de fato não ocorre.

Samuel Taylor Coleridge assim como outros artistas e cientistas do calibre de Albert Einstein afirmam que pensam com imagens mentais. Experimento de Cooper e Shepard ilustra no livro, de maneira científica, a idéia de que o pensamento visual compõe-se de um sistema de gráficos mentais.

Inferir novos conhecimentos a partir de outros, pré-conhecidos, é raciocinar. Pinker apresenta detalhadamente o funcionamento da Máquina de Turing, mecanismo hipotético capaz disso, que trouxe respeito científico à idéia da representação mental. A “teoria computacional da mente”, também conhecida como “teoria representacional da mente” ou “hipótese do sistema de símbolos físicos”, postula certas regras: as representações mentais são formadas pelo arranjo de símbolos (que representam conceitos); o processador é um aparato com certo número de reflexos e a combinação dos dois por si só produz conclusões inteligentes.

O mentalês não é apenas mais um tipo de língua, mas um tipo peculiar de linguagem capaz de superar os seguintes problemas: a ambiguidade inerente ao fato de mais de uma idéia corresponder a uma mesma palavra; a falta de explicitação lógica (bom senso, como diz o autor) das línguas faladas; o problema da “co-referência”, que utiliza expressões diversas para se referir a uma mesma coisa sem a necessidade de repetir várias vezes uma expressão, e a “dêixis”, palavras na língua que dependem do contexto para serem compreendidas.


Língua: mentalês.
Conceitos e símbolos;
Processamento.




Pinker, no quarto capítulo do livro, Como a linguagem funciona, aborda, a linguagem em uso, as ligações arbitrárias que fazemos entre um significado e um som (Ferdinand Saussure) e a possibilidade combinatória estrutural infinita de elementos finitos (Chomsky, após Wilhelm von Humboldt), a GU como intermediadora daquilo que fazemos com tanta facilidade: falar e compreender. O que é tido pelos gerativistas como sendo a materialização da GU, a sintaxe nada mais é que esta capacidade de estruturar idéias que, numa determinada ordem, terão um sentido novo, diferente das unidades que a compõem e que, se mudada sua peculiar ordem, terão sentido modificado.

O autor define o funcionamento da língua da seguinte maneira: o léxico, um “dicionário mental”, palavras ligadas aos conceitos que representam, e a gramática mental, conjunto de regras de combinação voltado a transmitir as relações entre os conceitos desse dicionário mental. Desta maneira, o autor coloca 10 elevado à vigésima potência como número mínimo aproximado de frases que podemos lidar, mas as possibilidades são infinitas.

Não temos uma lista de frases pré-programadas para uso e cada uma das novas estruturas possíveis comporta um acréscimo. O conceito da estrutura é similar ao de um fractal (Benoit Mandelbrot), só que invertido, pois cada uma delas pode ser fazer parte de outra similar e maior em vez do contrário, como uma samambaia. Assim, pode-se dizer, parafraseando o poema de Joyce Kilmer, que só Deus pode fazer uma samambaia às avessas.

A estrutura sintagmática é a parte do design da língua descrita, ilustrada e, como mencionado pelo autor, dissecada no presente capítulo. Com seus princípios e parâmetros, essa estrutura seleciona elementos possíveis e as posições nas quais podem localizar-se num determinado sintagma.

Pinker transmite a noção de “termos functivos” que dão aspecto peculiar a cada língua, bem como as idéias de “estrutura profunda” e as “transformações” necessárias para que esta estrutura torne-se “de superfície” por meio de mudanças na ordem que ocupam no sintagma tornando uma sentença utilizável, pois uma sentença ativa nem sempre será verdadeira, caso não sejam deslocados seus sintagmas para que se torne uma sentença passiva. Exatamente como as frases do autor ao final do período: a complexidade da mente não é causada pela aprendizagem; a aprendizagem é causada pela complexidade da mente.

Complexidade,
Não o oposto, causa
Aprendizado.





O universo das palavras é o foco de atenção deste quinto capítulo. A morfologia, flexão e derivação. Esta, a formação de novas palavras por adição de novas partes que alteram o significado de uma palavra; aquela, a modificação de uma palavra para que se encaixe de maneira correta em uma frase; e, também, a composição de palavras que une duas palavras para criar outra, que representa um terceiro conceito diferente dos que lhe deram forma separadamente. O resultado alcançado por estas modificações poder ser base para formação de outra palavra.

A morfologia, assim como a sintaxe, é um sistema que permite combinações entre seus elementos de diferentes formas para criar palavras que serão elementos da estrutura sintática. A possibilidade de ter-se o significado principal de uma determinada palavra pelo radical e pela a sua raiz é similar ao que nos permite, na sintaxe, determinar sobre qual o assunto referido numa frase, pelo seu núcleo.

Uma raiz de uma palavra qualquer estará presente em todas as palavras derivadas dela e estas novas palavras poderão ser radical de outras palavras e assim por diante. Este processo ocorre em níveis e numa ordem específica: primeiro os afixos, depois as flexões, posto que a uma palavra já flexionada não recebe mais afixos, e a posição de uma palavra em relação a sua raiz terá reflexos em nossa capacidade de perceber padrões algumas vezes irregulares nas palavras. Formas irregulares, radicais e raízes, compartilham de posição semelhante, em nível, nos diagramas em árvore das estruturas vocabulares.

O termo palavra pode ser usado de duas formas. A primeira, como algo que, apesar de formado por partes, é uno e nada pode ser interposto dentro de uma palavra ou retirado dela sem que esta se desfaça, e, a segunda, o listema, que é um item não composto por meio de uma regra e que tenha de ser memorizado, ainda que seja composto de uma expressão, mas com significado próprio equivalente a um conceito, como em expressões idiomáticas diversas colocadas por Pinker para exemplificar listemas.

Morfologia.
Sashimi de palavras:
Decomposição.





No sexto capítulo o autor aborda aquilo que ocorre com o que a audição capta, e o que se sucede até a fala deixar a boca, matéria de estudo da fonética. O que percebemos quando ouvimos assim como o que produzimos ao falar é língua. Captam-se seqüências de fonemas emitidos em blocos e de alguma maneira silêncio é colocado entre uma palavra e outra. Não se fala nem se ouve palavra a palavra, mas silêncio é interposto entre as elas, para que o produto da fala seja ligado ao exato conceito transmitido. Tal é a razão de não se localizar exatamente onde ficam as pausas de uma língua estrangeira captada por quem não a conhece.

Sentenças e sintagmas compõem-se de palavras, palavras compõem-se de morfemas, e morfemas, por sua vez, de fonemas, diz Pinker, escutamos e produzem-se fonemas para transmitir conceitos: reduzem-se conceitos a cadeias de fonemas e transformam-se cadeias de fonemas no mesmo conceito elaborado. Cérebros entram em contato através desses pacotes de fonemas.

Traquéia; laringe e suas pregas vocais; faringe; boca, dentes e língua (maior órgão fonador); e também o nariz esta é a volta completa do aparelho fonador descrita minuciosamente pelo autor. O ar que sai dos pulmões é usado pelo homem para produzir seqüências de ondas sonoras. O conjunto de fonemas de um idioma é um dos fatores que dão a ele seu padrão sonoro característico, bem como as ligações específicas dos fonemas em sua língua.

Fonemas reúnem-se em sistemas semelhantes aos da sintaxe e da morfologia. Consoantes e vogais ocupam onset e rima para formar sílabas possíveis no idioma falado cujos sons são a parte mais notada pelas pessoas e, por esta razão, são utilizados de maneira combinada na poesia e nos trocadilhos. As sílabas reúnem-se pés, grupos rítmicos fortes e fracos para constituir palavras. As regras fonológicas otimizam a língua de maneira a equalizar o trabalho de ouvintes e falantes.

O cérebro tem mecanismos altamente tecnológicos para o reconhecimento da fala. Assim os humanos conectam-se uns aos outros de maneira rápida. Erros ocorrem e, algumas vezes, percebe-se de maneira equivocada o que foi ouvido.

Alfabetos não correspondem a sons. A leitura tem a função de compreender o texto e não ouvi-lo. As palavras são captadas pelos órgãos da visão, desta forma o sentido do texto torna-se mais claro quanto melhor puderem ser transmitidos os conceitos. Conceitos são mais inteligíveis quando se pode ligar parte da palavra que o representa a um conceito conexo; ou reconhecer-se morfema raiz igual de palavras diferentes para facilitar a rápida compreensão daquilo que foi lido.


Cérebro humano,
Corpo todo máquina.
Humano ou máquina?





O Linguista no início do sexto capítulo aborda a inteligência artificial e cita o Golem, autômato da lenda judaica, e HAL, computador que se rebelou no filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Aqui, o autor percorre apenas parte do mesmo trajeto feito pelo osso atirado ao céu, por um homem primitivo (a primeira ferramenta). Osso que se transforma na nave espacial do futuro, no agora já passado, ano de 2001 (não tão expressivo - linguisticamente falando). Esse osso, nas telas, representou toda a história da tecnologia humana. Pinker foca a criação de inteligência, maior que a nossa, como razão de medo, mas demonstra todo o encanto que o tema trás.

Em que pese o número de tentativas, prêmios oferecidos, assim como o reconhecimento ao criador de tal tecnologia, não se consegue, nos dias de hoje, nem em breve (segundo pesquisadores de inteligência artificial), criar aparato que use a língua como um humano faz com tamanha desenvoltura.

Uma frase é reconhecida por meio de um programa mental denominado parser cujo objetivo é formar a árvore relativa àquela determinada frase que esta sendo recriada ou que será emitida; com o fito de comunicar conceitos, o parser utiliza as definições do dicionário mental e os princípios reguladores da combinação dessas definições.

Computadores tem muita memória e o poder de tomada de decisão deficitário, o oposto dos humanos, esta é a razão pela qual as coisas fáceis são difíceis e as coisas difíceis são fáceis para os profissionais da inteligência artificial. Como fazer com que uma máquina tome decisões sobre material ambíguo ou subjetivo é a grande dificuldade encontrada pelos profissionais da área.

Cada palavra compreendida faz com que palavras semelhantes no dicionário mental estejam mais rapidamente à disposição do que outras com significado não relacionado é o que dizem os psicolinguistas citados no livro, o que de certa forma trás consigo palavras de grupos diversos de significado, que poderão ou não fazer parte da frase captada.

A quantidade de frases e sintagmas possíveis, em razão desta espécie de pré-seleção de palavras correlatas, é um número grande demais para ser computadas por um humano, assim, nem sempre a árvore certa é formada o que acaba levando a incompreensão, o chamado efeito labirinto. O que diferencia um trabalho bem escrito de outro mal escrito é exatamente a capacidade de conduzir o leitor pelos caminhos arbóreos dos sintagmas e das frases.

As conversas transcritas (o autor menciona as do caso Watergate, que levou à renúncia e condenação de Richard Nixon) nem sempre transmitem o contexto necessário para sua compreensão. Isto faz ver que não só o parser é necessário para que se compreenda o que foi comunicado. A dêixis auxilia a rapidez da comunicação, mas exige contexto para ser precisamente compreendida.

Parser maldito,
Conecta logo isso!
Comunicação.





Chomsky é citado no início deste oitavo capítulo pela afirmação de que se um cientista marciano que visitasse a terra certamente concluiria que, afora seus vocabulários mutuamente inteligíveis, os terráqueos falam uma única língua.

Tal afirmação, como todas do lingüista, não é unanimidade, entretanto Pinker menciona as muitas semelhanças entre as línguas transmitindo a impressão de que a GU é formada por uma estrutura comum das regras e princípios sintáticos, morfológicos e fonológicos com pequeno conjunto de parâmetros que variam de língua para língua. O porquê da Torre de Babel ainda não é conhecido pelos cientistas terráqueos.

Darwin trata as línguas como grupos estruturados de forma tão semelhante à dos animais que aponta a equivalência entre a extinção de uma espécie animal à morte de uma língua. A ação do tempo sobre espécies e línguas dá causa a processos de variação, hereditariedade e isolamento. Por tal razão, para entender porque não se fala uma só língua na Terra, é tão importante compreender os efeitos da inovação, aprendizagem e migração.

A aprendizagem se foca nas necessidades e estas variam por diversas razões, desta maneira, o que se tem de inato é somente o universal, aplicável a todos os humanos. E, após contato com outros da mesma espécie, na idade adequada, faz com que o instinto da linguagem proporcione a aquisição daquilo que não foi herdado geneticamente.

Variações na fala, ainda que pequenas, ocorrem constantemente e cada membro de uma comunidade falante, ao longo do tempo, em função dessas pequenas alterações, acaba por modificar a língua. Outra fonte de variação mencionada por Pinker é a reanálise.

A separação entre grupos de falantes faz com que as inovações não sejam universais. Então, as pequenas variações vão paulatinamente modificando uma língua de maneira que, em razão do tempo, características peculiares a cada grupo acentuam-se cada vez mais.

Uma mesma língua muda tanto que exemplos em inglês de várias épocas parecem língua diversa. Nos exemplos do livro, a diferença entre inglês contemporâneo e inglês antigo é notavelmente grande para um período de quase mil anos apenas, que representa algo em torno de apenas vinte gerações. Pouco, se levada em consideração a existência do homem no planeta.

As afinidades encontradas entre o sânscrito e diversas outras línguas foram primeiramente apontadas por Sir William Jones em 1786, ao estudar essa língua morta e compará-la com línguas modernas e outras línguas mortas da Europa, o juiz inglês deu origem ao estudo de linguistas que apontam para a existência de uma língua antiga comum tanto na Europa como em outros continentes do Planeta.

As crianças, que adquirem a linguagem dos pais, transformam-se no combustível vital para a manutenção da língua, assim, as línguas morrem quando não são transmitidas. Aponta o autor, que muito mais línguas estão à beira da extinção do que as espécies animais que o estão.


Torre de Babel
Bênção para os homens:
Diversidade.





Citações de manchetes sensacionalistas dão início ao nono capítulo do livro, a principal: BEBE NASCE FALANDO – DESCREVE CÉU, feita pelo jornal Sun. Os bebês chegam ao mundo, bem aparelhados linguisticamente. De fato, antes mesmo de nascer a criança é exposta à melodia da língua materna.

A aquisição da primeira língua ocorre de maneira ininterrupta: a criança não para de acrescentar novas palavras e adequar a estrutura da GU a esta primeira língua, após o que, terminada a fase de aquisição, a aquisição de outra língua não mais terá os benefícios desta fase, como não ter uma primeira língua instalada no sistema, cometerem erros sem acanhamento.

Os bebes, durante seu primeiro ano, gritam, estalam a boca; brincam com os sons, emitem semivogais, semiconsoantes, silvos; balbuciam. Tudo isso para testar o aparelho fonador com o qual nascem. Antes mesmo do primeiro ano de vida, os bebês começam a compreender palavras e, ao completarem um ano de vida passam a emitir palavras isoladas. Com um ano e meio de idade, dezoito meses, a linguagem deslancha à incrível velocidade de uma nova palavra a cada duas horas; a sintaxe tem início com a combinação de duas palavras (geralmente voltadas para as ações mais cotidianas) que já são colocadas em uma ordem relativamente correta em relação à língua materna, nesta fase os bebês compreendem frases maiores; ao final do segundo ano e meados do terceiro, a criança passa a usar com relativa fluência e rapidez e as frases aumentam de tamanho consideravelmente e, apesar de muitas das vezes as frases serem agramaticais, os erros gramaticais são fruto da falta de memorização de termos e da generalização de regras que contém exceções. Como diz Pinker, A criança de três anos é gramaticalmente correta em qualidade, não só em quantidade. Algumas crianças podem demorar um período maior para adquirir a língua, mas as fases são idênticas às das outras e isso é absolutamente normal.

Não importa quão difícil e rebuscada possa ser a língua materna, a criança a aprende com o mesmo processo e com a mesma facilidade. Para que tal ocorra é necessária a fala de outros humanos e a maneira especial com que os adultos falam com crianças: o mamanhês. Exemplos de crianças que permaneceram à margem da língua durante a fase levam a conclusão que esta separação cria dificuldades no processo de aquisição, cada vez maiores quanto mais se aproxima o final da fase de aquisição. As consequências são muitas das vezes irreversíveis em grau inversamente proporcional ao afastamento do final da fase de aquisição. A fase tem fim por não ser mais biologicamente necessária.

O autor afirma que as crianças já nascem falando em função da comparação da gestação humana com a de outros mamíferos. Se o humano permanecesse na barriga pelo mesmo período proporcional àquele de outras espécies, nasceriam com dezoito meses, ou seja, nasceriam no meio da fase na qual a linguagem deslancha. Assim, a afirmação do autor faz sentido na medida desta comparação relativa. O cérebro humano é uma máquina bastante complexa, e por isso não estão completamente desenvolvidas quando do nascimento e mudanças expressivas ocorrem após o nascimento.


Dezoito meses,
A linguagem deslancha.
Nascem falando?





A biologia da linguagem é abordada por Pinker no décimo capítulo, o instinto da linguagem não pode estar isolado na matéria cerebral, muito menos fora da cadeia de genes que norteiam o desenvolvimento de cada um dos seres vivos no planeta. O livro O instinto da linguagem é de 1994, assim, não foi incluída a possível descoberta do gene FOXP2, feita por integrantes do Projeto Genoma Humano, ainda assim, aparentemente (por divergência na apresentação da família como K.E., no artigo de Eduardo Kenedy Gerativismo e K. neste livro de Pinker), o mesmo caso referente à descoberta do gene FOXP2 encontra-se no livro de Pinker, mesmo anteriormente ao anúncio da descoberta, o que indica ser o fato clínico da referida família plenamente conhecido e experimentado pela comunidade científica.

Outros casos clínicos são mencionados pelo autor para caracterizar a preponderância do hemisfério esquerdo do cérebro, bem como o fato do controle da linguagem encontrar-se nesse mesmo hemisfério. Até mesmo entre os canhotos a maioria das pessoas tem realmente a linguagem controlada por este lado do cérebro.

A região específica da gramática não é conhecida. As regiões do cérebro nas quais se encontram as habilidades linguísticas responsáveis por nossa fala, compreensão, processamento, ainda não foram encontradas em função da relativa pobreza técnica atual para determinar tais sítios.

O armazenamento de informações em cópias espalhadas por diversas regiões do cérebro é um complicador a mais para esse mapeamento das interconectadas redes constitutivas do córtex cerebral. Pinker demonstra como funcionam as redes de neurônios para computar regras gramaticais.

Semelhanças entre erros na pronúncia de gêmeos idênticos são apresentadas como indicativo de influência genética na linguagem, por não serem apresentadas semelhanças tão expressivas em gêmeos fraternos. Outras experiências com pacientes clínicos que apresentam problemas referentes à linguagem são apresentadas para corroborar a existência de genes da gramática.


FOX Pê dois:
Gene abençoado,
Que nos faz falar.





O autor ressalta, neste capítulo do livro, o caráter de exclusividade da linguagem humana. No reino animal existe comunicação, no entanto este contato, pelo que se sabe, é feito por meio de um sistema finito de mensagens. Assim a linguagem humana é uma espécie de comunicação mais desenvolvida, e mais bem aparelhada, que a dos outros animais, como as diferenças citadas por Pinker em relação à tromba de um elefante e as narinas dos demais animais. Isto ocorre em razão da evolução diferenciada de cada espécie sempre baseada na seleção natural (e nos efeitos do ambiente), tornando a espécie, ligeiramente melhor adaptada ao meio a cada nova geração.

A origem ancestral dos humanos é abordada, por Pinker, neste capítulo do livro, detalhadamente. A evolução das espécies não necessariamente é feita a partir de algo previamente existente, novos incrementos podem ser gerados de maneira gradual através das gerações, com o mesmo propósito de melhor adaptação ao meio.

Alguns traços desenvolvem-se por razões diferentes das dadas pela Teoria da Evolução das Espécies, de Darwin. História da espécie e a própria natureza, com suas leis, como a da gravidade, fazem com que a espécie tenha necessariamente que apresentar tais traços no seu design. Entretanto, órgãos complexos tem seu desenvolvimento atribuído à seleção natural.

A existência de variações de tamanho do cérebro em humanos (por doença ou anomalias como ananismo e hidrocefalia) não justifica a atribuição da linguagem ao volume desse órgão, pois, se assim fosse, não teriam os portadores dessas doenças e anomalias capacidade linguística normal, e os possuidores de cérebros de forma e de tamanho idênticos ao padrão da espécie teriam dificuldades linguísticas em função de diferenças que não alterassem forma e dimensão do cérebro.

Vantagens mínimas adquiridas são suficientes para dar, de maneira paulatina, novo curso à evolução de determinada espécie em alguns milhares de gerações. Destarte, a espécie humana evoluiu e continuará evoluindo, como todas as espécies.


Gradualmente,
Adaptações são feitas:
Língua e tromba.





A diferença entre a descrição da gramática em uso e a prescrição de determinadas regras consideradas como corretas pelos leigos. As regras prescritivas não existiriam sem as regras gramaticais que possibilitam o uso efetivo da língua por todos os indivíduos da espécie humana.

As regras prescritivas são uma convenção, nem sempre lógica, de como se deve usar a língua. As leis da GU são respeitadas por todas as normas prescritivas por serem mais fundamentais, e os erros, atribuídos à ignorância, são na verdade bastante lógicos nos termos da GU.

Por meio de inúmeros exemplos na língua inglesa, Pinker faz ver claramente a carência de acuidade daqueles, denominados por ele de os craques da língua, em bradar as mil razões desse ou daquele conjunto de regras gramaticais ser o correto.

Por certo, não existe língua correta, mas é verdade que correta é cada língua viva. O uso da língua é mais profundamente ligado à GU do que às regras gramaticais impostas como padrão. Este padrão vem da atribuição, pela elite dominante, de sua língua como sendo a correta.

Na verdade quem cria a língua é quem a usa, desta forma, não podem deixar de ser relevantes as contribuições daqueles que terminam por criar jargões técnicos e gírias que adaptem sua língua ao meio em que estão. A necessidade faz com que novos termos sejam criados à medida que surja essa necessidade, enriquecendo e realimentando a língua.


Realimentar.
Adaptar a linguagem:
Utilização.





A linguagem é a parte mais acessível da mente diz Pinker nesse último capítulo do seu livro. A existência desse acesso gera a necessidade do estudo da linguagem como forma de compreender-se a própria natureza humana.

É necessário que exista um mecanismo para que se aprenda, e nesse mecanismo deve estar presente o que é inato. Assim, onde quer que nasça, vai falar a língua utilizada no ambiente, que recebeu dos responsáveis em criar esta criança.

Gramática mental e outras áreas que são responsáveis pelo comportamento lingüístico necessitam ser estudadas em razão da peculiaridade de cada indivíduo de criar sentenças infinitas por meios finitos. A complexidade da organização dos processos lingüísticos mentais, para que se criem frases que se enquadrem no modelo da Gramática Universal, devem ser levadas em consideração nesses estudos.

A mente é investigada (por intermédio da linguagem) em todas as ciências que tem como escopo o estudo da mente, psicologia evolutiva é uma delas. Para compreendermos o design da mente, precisa-se focar seu caráter universal nas sociedades humanas. A GU, com seu design computacional, encontra-se em todas as línguas. As causas que tornam uma língua diferente das outras estão em um nível mais superficial. A GU é a infra-estrutura das línguas faladas em todas as sociedades. Diferenças culturais e de ambiente tornam-nas dispares e ininteligíveis. O que seria considerada como uma única língua pelo cientista marciano citado por Chomsky é a GU.

Pinker cita as inúmeras manifestações da interação do ser humano com seu ambiente e em sociedade para caracterizar a universalidade da natureza humana. E que a biologia possa ser um dos módulos da mente. O instinto da linguagem leva a pensar que uma mente com módulos computacionais adaptados seja o reflexo da realidade e não uma tabula rasa.

Os módulos mentais e o instinto da linguagem correspondem a traços existentes em toda a espécie humana e isso não é uma diferença genética, mas sim uma semelhança, o que representa, no final das contas, parte da caracterização da natureza humana.

Raça e etnia não possuem as diferenças mais significativas existentes entre um humano e outro geneticamente. Pois, como citado por Pinker, as diferenças genéticas entre indivíduos de um mesmo grupo são da ordem de 85%, de 8% entre grupos étnicos distintos e de apenas 7% entre raças.

A onipresença da linguagem se manifesta por intermédio do ritmo da fala humana, percebido já desde feto em gestação, seja de que etnia for, em qualquer idioma, em qualquer tempo e lugar do Planeta, pois nele se encontra inato o instinto da linguagem.



Onipresente,
A linguagem humana
É instintiva.



Novembro de 2009.






BIBLIOGRAFIA:


CRISTAL, David. Dicionário de linguística e fonética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.



KENEDY, Eduardo. Gerativismo. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Manual de linguística. São Paulo: Contexto, 2008, pp.127-140.



MATHEWS, P.H. The concise Oxford dictionary of linguistics. New York: Oxford University Press, 1997.



PINKER, Steven. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

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